Coluna Família TEA: Diálogos Entre Mundos, por Mariana Komesu

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Mariana Komesu

Meu nome é Mariana Komesu, sou professora bilíngue, formada em letras, ilustradora de livro infantil e autista.

Entre uma instrução ambígua e uma expectativa não verbalizada, muitas portas se fecham para profissionais autistas; isso não ocorre por incapacidade, mas por falha de tradução. Nos últimos anos, trabalhando e sendo autista, pude refletir melhor sobre algumas barreiras interpostas entre membros de uma equipe formada por profissionais com diferentes estilos de comunicação e processamento.
Há alguns anos, logo após meu diagnóstico, transmitir e expressar meus limites, barreiras e necessidades não foi o maior obstáculo, mas comunicar, num nível mais profundo de entendimento desses conceitos, aprofundá-los no outro e traduzi-los para uma linguagem que o alcance de fato — isso sim tem sido desafiador.
Atualmente, trabalho como professora bilíngue em uma escola particular no interior de São Paulo. Posso afirmar, sem receios, que a equipe com quem convivo é acolhedora, compreensiva e humana. Embora não lhes falte desejo de me compreender e aceitar, conflitos inevitavelmente acontecem; claro que aconteceriam mesmo se fôssemos todos neurotípicos ou todos neurodivergentes. No entanto, este ano pude refletir um pouco mais profundamente a respeito desses conflitos. Eles não ocorrem por falta de mentalidade inclusiva ou respeito à diversidade — não; eles acontecem porque falamos idiomas diferentes (e aqui não me refiro ao inglês ou ao português).
Por exemplo, diante do meu perfil dentro do espectro autista, um fator agravante é a disfunção executiva. De forma geral, autistas apresentam diferenças no funcionamento das funções executivas; em mim, isso influencia acentuadamente meu comportamento. Tenho muita dificuldade em organizar meu ambiente, ou seja, faço bagunça. Perco prazos com frequência, não consigo priorizar demandas; entre outras situações, a lista é longa. E, no meu idioma, na minha linguagem, quando falo sobre bagunça, organização e minha limitação nessa área, compreendo que isso é neurobiológico. Essa mesma informação, ocasionalmente, chega a algumas pessoas traduzida como “falta de vontade”, “necessidade de esforço”, “questão de prática” ou “preguiça”.
Vivemos um momento de acesso quase ilimitado a informações sobre o funcionamento do cérebro autista, mas ainda não chegamos à tradução correta de tudo o que permeia essa condição. Eu compreendo a confusão que se dá nesses momentos porque somos extraordinários em tantas tarefas mais complexas — não generalizando, mas alguns de nós, autistas com altas habilidades, somos capazes de memorizar dados praticamente sem esforço, compreendemos conceitos filosóficos ou científicos, elaboramos projetos e textos, somos ávidos por literatura ou música, mas não conseguimos alinhar uma pilha de livros ou organizar uma estante. Isso definitivamente tem um potencial de estarrecer quem convive conosco, o que facilmente leva a inferir que, diante de todo esse potencial, é impossível que algo tão simples seja tão trabalhoso.
Há um tempo venho refletindo realmente que, tanto nos comportamentos não verbais quanto no vocabulário e nas ações, falamos outro idioma. Neurotípicos muitas vezes não têm a intenção de dizer o que estão dizendo, e meu “dicionário mental” nem sempre é capaz de compreender a informação como foi pretendida; bem como meus comportamentos nem sempre são devidamente compreensíveis para quem não fala essa língua estranha do comportamento autista.
Minha experiência até aqui, no ambiente de trabalho, tem me mostrado que, às vezes, nós autistas também não falamos a língua dos neurotípicos e exigimos que eles nos compreendam. Por tantas vezes não falarem nossa língua e exigirem ser compreendidos, isso nos armou para conflitos. Talvez precisemos de um sistema de tradução melhor para que, a cada dia, as barreiras de comunicação diminuam e a inclusão aconteça com iniciativas dos dois lados.
Um dia, uma pessoa extraordinária me disse o seguinte: “Existe uma ponte; nós temos que andar metade e os outros andam metade, porque se um lado sempre precisar andar mais, fica desgastante.”
Agradeço ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade de escrever sobre um tema tão importante e pessoal. Falar sobre as barreiras de comunicação no ambiente de trabalho é também um convite ao diálogo, à escuta e à construção de pontes mais humanas e inclusivas.

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